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Biografia

Em túmulo sóbrio e simples,repousa a paulistana Maria Domitila de Castro Canto e Melo,Viscondessa de Castro e Marquesa de Santos (1797-1867). Foi ela a doadora de recursos que seriam empregados na construção da capela do Cemitério da Consolação, que, em 1858, inaugurou o ciclo dos cemitérios públicos paulistanos e com ele decretou o fim dos sepultamentos no interior das igrejas. Até então havia apenas a exceção dos enforcados e dos escravos, sepultados no Cemitério dos Aflitos, no atual bairro da Liberdade, de que resta apenas a capelinha desse nome.

Naquele tempo, os adultos eram sepultados em quadras a eles destinadas, separados das crianças, então classificadas em anjos pequenos, anjos do meio e anjos grandes. Escravos também foram sepultados na Consolação, abrindo um cenário que na morte anulava simbolicamente as graves e profundas diferenças sociais da sociedade escravista, que até então prevaleceram com o sepultamento dos senhores nas igrejas e dos escravos no cemitério.

Domitila seria sepultada no Cemitério da Consolação poucos anos depois de sua inauguração. Ao gesto de civilidade e despreendimento da doação para a capela, legou a São Paulo a não pouco importante iniciativa de ter promovido e disseminado o costume de realização de saraus para encontro social e entretenimento de jovens de ambos os sexos. Até então, as mulheres viviam praticamente confinadas no gineceu doméstico, limitadas a conhecer parentes e a casar-se com primos, um costume paulistano muito mencionado por cronistas da época. Com os saraus da Marquesa de Santos e sob sua vigilância e das famílias, as moças tinham a oportunidade de conhecer os jovens estudantes da Faculdade de Direito,vindos de vários pontos do Brasil, por sua vez confinados nas repúblicas estudantis, barbarizados na gandaia da vida boêmia, longe dos pais. Sua iniciativa ampliava e diversificava a oportunidade de encontro civilizado entre futuros noivos e cônjuges. Uma verdadeira revolução na condição feminina e uma mudança de costumes sociais por meio das reuniões lítero-musicais e da verdadeira ressocialização para outra concepção da vida privada e do lugar da mulher na sociedade.

Apesar da imagem pública adversa e injusta, Domitila foi uma mulher sofrida, devotada à caridade e disseminadora da civilidade na rústica elite de São Paulo. Casou-se pela primeiravez aos 16 anos com o alferes Felício Pinto Coelho de Mendonça, do Corpo de Dragões de Vila Rica, em 1813, de quem teve três filhos. Durante a gravidez de um deles, que morreria pouco tempo depois de nascer, fora espancada e esfaqueada pelo marido. Dele se separaria e retornaria de Minas a São Paulo,dele se divorciando em 1824, já no início do relacionamento com o Imperador dom Pedro I. Enviuvaria em 1833. Com o falecimento da Princesa Leopoldina, dom Pedro, contrataria matrimônio com a Princesa Amélia de Leuchtenberg, neta do rei da Baviera. Nos tratos para realização do matrimônio foi imposto como condição o banimento da Marquesa de Santos da Corte, o que se deu, retornando ela a São Paulo, em 1829. Teve cinco filhos com o Imperador. Em São Paulo, recebeu apoio e acolhimento de Rafael Tobias de Aguiar (1794-1857), militar, futuro brigadeiro, com quem passaria a conviver, com ele se casando, em Sorocaba, no início da Revolução Liberal de 1842, chefiada por ele e pelo padre Diogo Antônio Feijó. Domitila teve dele quatro filhos. Adquiriu, em 1834, o sobrado da rua do Carmo, preservado, hoje conhecido como Solar da Marquesa, usado basicamente em dias de procissão para que, da sacada,o cortejo fosse apreciado, pois vivia no palacete do Brigadeiro Tobias, na rua que hoje leva esse nome, antiga rua Alegre.

Poucas pessoas sem mandato exerceram tanta influência durante o 1º Reinado como a aristocrata Domitila de Castro Canto e Melo, que passou para a história como Marquesa de Santos, a mais famosa amante de Dom Pedro 1º.Filha do coronel reformado João de Castro Cantão e Melo e de Escolástica Bonifácio de Toledo Ribas, Domitila trabalhou para a família real como camareira-mor da imperatriz Maria Leopoldina.Quando tinha apenas 16 anos, Domitila casou-se com um oficial mineiro, integrante do 2º Esquadrão do Corpo dos Dragões da Cidade de Vila Rica, o alferes, Felício Pinto Coelho de Mendonça, com quem teve três filhos.

Em 1815, depois de uma discussão com o seu marido, Domitila, que estava grávida, foi esfaqueada. Este ato levou a futura Marquesa de Santos a abandonar Mendonça e retornar para a casa dos pais, em São Paulo. Depois da separação, começou a namorar D. Pedro 1º, um romance que a levou a ser condecorada inicialmente como Viscondessa e, em seguida, Marquesa de Santos.

Domitila conheceu Dom Pedro 1º pouco antes da Proclamação da Independência. O imperador, após realizar uma viagem a São Paulo, convidou-a para morar no Rio de Janeiro, em um palacete que foi adaptado e decorado de acordo com as suas preferências.

A união extraconjugal com o responsável pela Independência do Brasil, que durou sete anos, deu outros cinco filhos à Marquesa _um menino natimorto (1823), Isabel Maria de Alcântara Brasileira (1824), Pedro de Alcântara Brasileiro (1825), morto antes de completar um ano, Maria Isabel de Alcântara Brasileira (1827), que morreu com nove meses e Maria Isabel 2ª de Alcântara Brasileira, que somente foi reconhecida por D. Pedro às vésperas da morte do imperador.

Mesmo enfrentando uma forte oposição da Corte, que não aceitava o seu namoro com o imperador, Domitila continuou fazendo parte do núcleo do "poder" até que D. Pedro 1º anunciou o seu casamento com Amélia Beauharnais, a Duquesa de Luuchtemberg.

Domitila, então, deixou o Rio de Janeiro e voltou a morar em São Paulo, onde se casou com o brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar, com quem teve outros quatro filhos. No dia 13 de novembro de 1867, a Marquesa de Santos morreu em São Paulo e foi enterrada no Cemitério da Consolação, cujas terras foram doadas por ela à cidade.

Em São Paulo, a Marquesa de Santos dedicou os seus últimos anos a ajudar os pobres, doentes e estudantes. Rica e com muito prestígio político, recebia as principais personalidades da vida acadêmica e cultural de São Paulo em sua casa, um "solar" muito elegante e luxuoso, comprado em 1834.

Construído na segunda metade do século 18, a residência ficou mais conhecida como o "Solar da Marquesa". Depois da sua morte, o solar abrigou o Palácio Episcopal e sede de companhias de gás. Hoje, abriga parte do acervo do Museu da Cidade de São Paulo, com mobília e utensílios domésticos, além de fotos antigas e paredes de taipa de pilão.