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Biografia

Hoje a capital paulista tem um grande números de jornais diários que chegam às mãos de seus leitores em papel jornal ou  em suas versões digitais através de computadores e tablets. Mas há 158 anos atrás, a realidade era outra completamente diferente e repleta de dificuldades. Contudo, um homem soube superar todos os obstáculos de uma cidade então pequena e com poucas pessoas alfabetizadas ou em condições de comprar um jornal e criou o primeiro diário da Cidade de São Paulo, o Correio Paulistano. Este homem foi Joaquim Roberto de Azevedo Marques.

O COMEÇO:

Nascido nos primeiros anos do Brasil independente, na então cidade paulista de Paranaguá (à época ainda não existia o estado do Paraná) em 18 de agosto de 1824, desde a juventude esteve ligado à imprensa.

Órfão de pai desde os 7 anos de idade, teve uma infância muito pobre e difícil,  indo aos 12 anos de idade aprendar o ofício de tipógrafo,  nas instalações da tipografia do jornal “O Novo Farol Paulistano”, a única existente na cidade,  onde trabalharia até os 17 anos quando deixaria o trabalho para seguir uma breve carreira militar entre, 1842 e 1845, alistando-se ao 4o Batalhão de Fuzileiros onde foi de praça a cadete.

Na imagem, o jornal “O Novo Farol Paulistano”

Ao regressar para suas atividades civis e já experiente de seu trabalho prévio como tipógrafo, foi convidado pelo então Presidente da Província de São Paulo, o General Manoel da Fonseca Lima e Silva, a ser o diretor técnico do jornal “O Americano”, períodico estatal de breve existência. Ali, Azevedo Marques permaneceria alguns anos. Deste ele partiria para trabalhar em outro jornal de breve existência, o “Ypiranga“, de filosofia liberal onde também trabalharia na mesma função de diretor até o mesmo fechar.

O SONHO DE ABRIR SEU PRÓPRIO JORNAL:

Com o fim do jornal “Ypiranga”, a Tipografia Imparcial onde o mesmo era impresso foi colocada à venda. Foi então que Azevedo Marques vislumbrou finalmente a possibilidade de criar o seu próprio jornal, juntando suas economias e comprando a tipografia. Após a aquisição, ele passou a planejar duas coisas fundamentais:

Primeiro, como se chamaria e como seria o novo jornal. Para o nome, resolveu utilizar o de um breve jornal que circulava duas vezes por semana em 1831, e que havia sido criado pelo seu sogro, o negociante português José Gomes Segurado. Chamava-se Correio Paulistano.

Segundo, como seria a periodicidade do jornal em uma cidade então muito pequena como São Paulo. E foi ai que Azevedo Marques tomaria uma decisão bastante ousada para época, o jornal seria diário, um feito inédito para a época.

O jornal ficava na rua Nova de São José (atual Líbero Badaró) nos idos de 1860.

NASCE O CORREIO PAULISTANO:

Figura experiente e reconhecida na área da tipografia, Azevedo Marques não era um jornalista de formação. Para não prejudicar seu novo diário que estava nascendo, convidou para dirigir o jornal o célebre jornalista e político Pedro Taques de Almeida Alvim. Figura então de grande destaque na sociedade paulista, atuante como importante promotor público e também como deputado em várias legislaturas.

Pedro Taques trouxe a credibilidade que o jornal precisava para, ao ser lançado, fixar-se como importante veículo de comunicação do povo paulistano. E assim o jornal se estabeleceria-se como a grande e única voz de São Paulo até surgir, décadas mais tarde, seu primeiro grande concorrente, a Província de S. Paulo (atual O Estado de S.Paulo) em 1875.

Seu jornal prosseguiu como diário por pouco mais de um ano, quando por dificuldades financeiras teve que ser reduzido para duas edições por semana. Em 1858, voltaria definitivamente a ser diário, sendo que 3 anos mais tarde atingiria a tiragem recorde para a época de 450 exemplares diários. Nos primeiros anos do jornal colocou toda a família para trabalhar na tipografia e escritório do jornal, suas filhas inclusive. Eram elas que escreviam um a um diariamente os endereços dos assinantes do jornal para a entrega.

O HOMEM REPUBLICANO E ABOLICIONISTA:

Azevedo Marques exercia também um cargo no governo provincial como funcionário público. Apesar disso era um grande divulgador e defensor das causas abolicionistas e republicanas, tendo inclusive participado da Convenção de Itu.

Estas posições fortes traziam-lhe inconvenientes perseguições políticas e tentativas de boicote ao seu jornal, todas elas resistidas bravamente com uma coragem de poucos. Certa vez, ao ser pressionado pelo Presidente da Província com uma demissão por suas fortes posições políticas e ideológicas, respondeu:

“Senhor presidente, eu, como funcionário público, cumpro sempre os meus deveres burocráticos, servindo na administração pública o povo da minha província. Entretanto, sou um cidadão brasileiro, um homem no uso e gozo da liberdade política, de acordo com a Constituição do Império. Como cidadão, sou republicano e abolicionista. E o meu jornal é o agente da minha liberdade de pensar. O governo, que é o poder, pode, se quiser, demitir-me. Mas o que não pode é destruir o meu ideal democrático e mudar a feição do “Correio Paulistano”, de defender a democracia”

E esta coragem e virtude ele imprimiu a seu jornal onde permaneceu da fundação até 30 de novembro de 1889, quando foi afastado do mesmo após um incidente com o redator-chefe do Correio Paulistano à época, Dr. José Luís de Almeida Nogueira. O fato à época causou grande consternação na Cidade de São Paulo.

OS DERRADEIROS ANOS:

Viúvo desde 1881 e distante de seu querido jornal, Azevedo Marques concentraria-se apenas em seu cargo público, agora na administração municipal. Entretanto, já lhe faltava a saúde e agilidade de outras épocas. Mesmo assim, seguiria trabalhando até o fim.

E foi no trabalho, no edifício da então Intendência Municipal, que sofreria um acidente vascular cerebral que lhe seria fatal poucos dias depois. Ele viria a falecer na noite de 26 de setembro de 1892, aos 68 anos de idade.

Desaparecia então o hoje infelizmente tão pouco conhecido e reconhecido Joaquim Roberto de Azevedo Marques, aquele que foi o grande homem da imprensa paulista, que desde os 12 anos de idade dedicou sua vida ao jornalismo e defendeu a república e o abolicionismo. Foi sepultado ao lado de sua esposa, Anna Victorina de Azevedo Marques, no Cemitério da Consolação.

O ESQUECIMENTO E A RECUPERAÇÃO DE SUA MEMÓRIA:

Falecido, aos poucos Azevedo Marques foi caindo no esquecimento não só da população paulistana, mas por aqueles que jamais deveriam esquecê-lo: os jornalistas. Sua memória foi muito reverenciada em 1904 e 1954, datas em que foram celebradas respectivamente o cinquentenário e centenário do Correio Paulistano. Entretanto após o encerramento das atividades do jornal em 31 de julho de 1963, sua figura tão importante para a imprensa paulista foi sendo deixada de lado.

Em 2009, o túmulo de Joaquim Roberto de Azevedo Marques estava completamente abandonado e parcialmente destruído pela ação do tempo quando foi encontrado pelo blog São Paulo Antiga, quando era realizado um passeio pelo Cemitério da Consolação, no dia em que inauguramos este site.

O site São Paulo Antiga mantém limpo e florido desde 2009 o túmulo de Azevedo Marques.

Acreditamos que isto foi um sinal para que a história de Azevedo Marques não fosse jamais esquecida novamente. Sendo assim ele tornou-se patrono do São Paulo Antiga e desde então mantemos sua última morada limpa e com flores. Também, desde 2011, destinamos parte das doações que este site recebe para um fundo que irá permitir futuramente o completo restauro do túmulo.

A ele, que repousa na mais profunda paz, nosso sincero agradecimento por tudo aquilo que fez em nome do jornalismo paulista.

NOTA: Em 26 de junho de 2012, ocasião dos 158 anos de fundação do jornal, lançamos o site histórico oficial do jornalCorreio Paulistano que agregará toda a história do jornal, além de fotografias, documentos e relatos históricos, e também livros e revistas que já foram impressos pelo jornal e sobre o jornal.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:
Sousa, Alberto – Memória Histórica Sobre o Correio Paulistano (1904)
Correio Paulistano – 27/09/1892 – página 01
O Estado de S. Paulo – 26/06/1954 – página 07
O Novo Farol Paulistano – 06/08/1831 – páginas 01 e 02