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Biografia

Padre Ildefonso Xavier Ferreira (1795-1871), que foi dos primeiros professores da Faculdade de Direito.

Provavelmente, não é o túmulo original. Trata-se de uma capela sóbria e sem ornamentos, do tipo que se difundiu nos nossos cemitérios bem depois de seu falecimento. O padre Ildefonso,que nasceu em Curitiba,quando o Paraná era ainda uma comarca da Província de São Paulo, e faleceu num fim de tarde em sua casa na atual praça João Mendes, foi dos atores principais da iniciativa propriamente teatral que assegurou a Independência do Brasil no formato que veio a ter.

O Príncipe dom Pedro, então um jovem de 24 anos, viera a São Paulo para restabelecer a ordem política. Havia um conflito entre os que na Junta de Governo podem hoje ser definidos

como pró-Portugal e os que podem ser definidos como pró-Independência. O Príncipe convocara dois membros da primeira facção, o presidente da Junta, João Carlos Augusto

de Oeynhausen, e Francisco Inácio de Sousa Queirós, para que comparecessem perante ele, no Rio de Janeiro. Como,em conseqüência e legalmente, assumiria o governo Martim

Francisco Ribeiro de Andrada, da outra facção, irmão de José Bonifácio, os aliados de Francisco Inácio impediram que os convocados saíssem de São Paulo e promoveram a demissão de Martim Francisco. O golpe político, conhecido como “Bernarda” de Francisco Inácio, de maio de 1822, provocou a nomeação de uma Junta Trina de Governo e a vinda de dom Pedro a São Paulo para pacificar os ânimos.

Daqui foi ele a Santos numa manifestação de apreço à família Andrada, que ali vivia, de seu ministro e braço direito José Bonifácio de Andrada e Silva. Fez o Príncipe a penosa viagem de volta numa mula, abatido por uma diarréia que o obrigou a parar várias vezes no difícil trajeto de subida da serra, no então chamado Caminho do Mar. Após a última parada, em São Bernardo, no bairro dos Meninos, recebeu na colina do Ipiranga, para onde se adiantara a Guarda de Honra, que ali o esperava, cartas da esposa, a Princesa Leopoldina, e de José Bonifácio que o alertavam para a decisão das Cortes de Lisboa determinando seu imediato retorno a Portugal. Era um golpe contra o processo da Independência do Brasil, já parcialmente efetivada no formato de instauração do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, por iniciativa do próprio Príncipe Regente, Dom João, em 1815.

O grito da Independência, que o Príncipe imaginava estar proclamando, em 7 de setembro de 1822, era uma reafirmação da Independência já concedida e uma das independências possíveis do Brasil nas várias tramas políticas que a concebiam de diferentes modos. Já em 1806, bem antes da chegada da Família Real ao Brasil, os ingleses tinham um plano escrito, que está na Biblioteca Britânica, de promover a vinda do Príncipe herdeiro para cá e por meio dele proclamar a Independência sob tutela britânica, de maneira a assegurar mercados para a economia inglesa. Outro plano estava na cabeça de José Bonifácio, homem culto e politizado, santista de educação européia, casado com uma irlandesa. Era um plano que aproveitava de algum modo a presença do Príncipe na Colônia para proclamar a Independência do Brasil, de certo modo uma versão brasileira do, nessa altura, inevitável projeto inglês.

O Príncipe chegou de volta a São Paulo no fim da tarde daquele dia e foi hospedar-se no casarão do Barão de Iguape, na rua Direita, esquina da rua de São Bento, em frente ao que é hoje a praça do Patriarca. Dali, à noite, foi levado ao Teatro da Ópera, no Pátio do Colégio, que, na época, era o Largo do Palácio, onde, no antigo convento jesuítico, ficava o Palácio do Governo.

A recepção no Teatro era uma manifestação de acolhida e homenagem promovida pela elite paulista. Estava ali um grupo de andradistas. Um deles, o padre Manuel Joaquim do Amaral Gurgel, de 25 anos, que também viria a ser diretor da Faculdade de Direito, que o mesmo dom Pedro criaria cinco anos depois, animou o padre Ildefonso Xavier Ferreira, que tinha então 27 anos, a dirigir-se à frente do camarote em que estava o Príncipe e fazer-lhe uma saudação, previamente combinada. Foi o que fez e surpreendeu dom Pedro com esta aclamação: “Viva o primeiro Rei brasileiro!” E foi ali, pelo que se sabe, que o próprio Ildefonso gritou “Independência ou Morte!” Entre o acontecimento daquela tarde, no Ipiranga, e o daquela hora da noite, no Teatro, um grupo de jovens paulistas, alinhados com as idéias políticasde José Bonifácio, tramou a criação de um fato consumado que dava à Independência uma dimensão e um significado político diverso daqueles que motivaram a proclamação na colina em que se encontra hoje o Museu Paulista. Tratava-se de induzir o Príncipe a uma decisão mais radical do que a que o motivara horas antes, a de uma efetiva independência do Brasil.

No Ipiranga, dom Pedro proclamara a reafirmação da monarquia portuguesa no Reino do Brasil unido ao de Portugal e Algarve.

No Teatro do Pátio do Colégio, o padre Ildefonso proclamava um Reino do Brasil, independente de Portugal, com um rei brasileiro da mesma dinastia da de Portugal, a de Bragança. Coisas bem diferentes entre si, ainda que no espírito da conciliação que se tornaria tão própria da história política brasileira. O grito de dom Pedro movia o projeto de dom João VI e da dinastia, o da família de um Brasil mais independente do que o Brasil do Reino Unido.

Dom Pedro voltaria ao Rio e lá se consumaria e consolidaria a trama do projeto político contido na proclamação do padre Ildefonso em nome dos andradistas e não o contido na sua proclamação do Ipiranga. Num certo sentido, a proclamação fazia da Independência uma revolução política dos jovens. A coroação do Imperador, no dia 12 de outubro de 1822, e a criação do Império do Brasil, separado do Reino Unido, o confirmariam.

As tensões desse desencontro se arrastariam até à abdicação do Imperador em favor de seu filho, dom Pedro de Alcântara, em 1831, e, para alguns, até a proclamação da República, em 1889.